domingo, 25 de fevereiro de 2018

Orgulho e Preconceito: o que mudou na linha do tempo?



FICHA TÉCNICA



Título: Orgulho e Preconceito
Autora: Jane Austen
Tradutor: Roberto Leal Ferreira
Projeto Gráfico: José Duarte T. de Castro
Editora: Martin Claret
Ano: 2012
Nº de Páginas: 235
Livro Físico


Classificação Ansiosa❤❤❤❤❤



O que mais me fisgou nessa história do século XIX foi a grande semelhança com o cenário da nossa sociedade atual e minha pessoal empatia com a personalidade da personagem principal: Elizabeth Bennet. Num meio em que frivolidades e futilidades eram as principais características circundantes do universo feminino, Elizabeth, ou apenas Lizzy, destaca-se por enaltecer características como inteligência, sagacidade e personalidade forte – indo ao encontro das principais características das outras moças e dos valores e cultura da sua época. Entre sacarmos, ironias e outras amostras de sua real capacidade intelectual, ela conquista o coração de um jovem rapaz que tem no orgulho e na arrogância as suas principais armas de defesa. Entretanto, o mais impressionante deste romance, não é a história de amor entre dois jovens apaixonados, mas como eles lidam com isso, que revela uma sociedade plasmada por valores morais e financeiros. Estes quase sempre voltados a eles, aqueles a elas.
A narrativa se passa em torno do dia-a-dia da família de Elizabeth, os Bennet, e da região onde moram – uma cidade fictícia chamada Meryton, não muito distante de Londres. A garota é a segunda filha de uma família de cinco mulheres e é a única que não passa o dia pensando em casamento, no que isso também inclui, principalmente, sua mãe. Entretanto, esse comportamento não indica que Lizzy é desprovida de sentimentos (de forma alguma!), esta, apenas, não vê o matrimônio como os outros: um acordo social que, entre outras coisas, proporciona status. Para a jovem, antes de qualquer interesse financeiro e social, um casamento deve ser construído com base em um afeto sincero, através de um amor maduro e com harmonia entre as personalidades dos indivíduos. Outra personagem que também merece destaque é a mãe das meninas, Mrs. Bennet, que apesar da possibilidade de dar náuseas em muita gente por ela passar quase 24h do dia articulando casamentos para as cinco filhas, é vítima do julgamento da elite da região, sendo vista como inoportuna, inconveniente e mal-educada, sendo este julgamento também estendido às meninas na forma de preconceito (ótimo momento pra pensar no porquê isso acontece).
Porém, não seria inteligente, de toda maneira, criar uma imagem total negativa da senhora Bennet, isso porque, na época, as mulheres não herdavam as propriedades de seus pais - mesmo sendo as únicas herdeiras -, mas sim seus maridos, e na falta, qualquer homem da família – primos distantes, por exemplo - o que a deixava preocupada sobre o futuro das suas filhas.


De forma geral, o romance é regado de expressões como "Ela é tolerável, mas não bonita o suficiente para tentar-me!" e “As nossas filhas são muito bonitas”. O que revela um cenário social em que a beleza feminina é um fator determinante quanto às escolhas, refletidas na configuração social da época. Ou seja, uma característica subjetiva é transformada em objetiva e universal, e o que é pior, com poder material.  Nesse contexto, Naomi Wolff diz em seu livro O Mito da Beleza que o “o mito da beleza, na realidade ,sempre determina o comportamento, não a aparência”, uma vez que “um comportamento que seja essencial por motivos econômicos é transformado em virtude social". E Yuval Harari, no livro Sapiens, maximiza uma triste realidade: “em quase todos os lugares os homens foram privilegiados, pelo menos desde a revolução agrícola”.
Jane Austen foi mais uma - fantástica, por sinal – autora a retratar a realidade da inferioridade feminina e como isso afeta a relação das mulheres para com elas mesmas, refletidas em suas atitudes. 200 anos mais tarde e o que mudou quanto a hierarquia do gênero? “As mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriaram”, diz Wolff, e não veem que o que as influencia a buscar um ideal de beleza é uma forma reacionária masculina por todas as vezes que elas se libertaram materialmente. E o que é pior, tanto no século XIX quanto no século XXI, a busca da identidade feminina é também uma busca de uma “figura bela”, fazendo com que as mulheres, ainda nas palavras de Naomi, “permaneçam vulneráveis à aprovação externa, trazendo nosso amor-próprio, esse órgão sensível e vital, exposto a todos”. Sendo assim, a “beleza” ainda é usada como nossa principal arma, resta saber se esta pode estar sendo apontada para nós mesmas.
E  vocês, o que acham? Concordam com a minha impressão ou descordam totalmente? Comentem para a gente bater um papo ;)


sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Morro dos Ventos Uivantes e as Escolhas Determinantes que Fazemos

 FICHA TÉCNICA


Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Autora: Emily Brontë
Tradutora: Solange Pinheiro
Editora: Martin Claret
Ano: 2014
Nº de Páginas: 523
Livro Físico





Classificação Ansiosa: ❤❤❤❤❤



ATENÇÃO!: Pode conter spoilers.

O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico indispensável a todos os amantes da literatura. Essa obra-prima é – infelizmente – o único romance que a curtíssima vida da Emily Brontë permitiu que ela escrevesse. Infelizmente porque se ela, em um primeiro romance, escreveu algo tão extraordinário, imagina o que não teria saído da cabeça desta mulher se ela tivesse tido a oportunidade de fazer sua escrita amadurecer? Gosto nem de pensar... Mas, no post de hoje, eu queria falar sobre uma das possíveis abordagens desse romance: o quão determinante para as nossas vidas são as escolhas que fazemos e o quanto do livre-arbítrio existe nelas.

Quem já leu O Morro dos Ventos Uivantes sabe que o narrador, ou melhor, a narradora é suspeita e nada imparcial. A Nelly é escancaradamente #teamLinton e as opiniões dela podem, obviamente, serem determinantes no nosso olhar sobre a Catherine e o Heathcliff. Tudo que lemos se passa do ponto de vista dela. Nós nunca sabemos exatamente dos sentimentos do casal protagonista, a não ser quando eles têm voz ativa. Entretanto, eu sou do partido que defende a Nelly. Acho que ela é realmente fiel aos fatos. Como eu sustento essa tese? Bem, a própria Nelly confessa que no começo foi injusta com o Heathcliff, chegando inclusive a agredi-lo junto com o Hindley. Vê só esse trecho:

“A Stra. Cathy e ele eram então unha e carne; mas Hindley o odiava, e, para ser sincera, eu também; e nós o atormentávamos e procedíamos em relação a ele de modo vergonhoso, pois eu não era sensata o suficiente para perceber minha injustiça, e a patroa nunca disse uma palavra a favor dele ao vê-lo maltratado.”

Bem, quem, que estivesse mentindo, falaria algo assim sobre si mesmo? Todos nós tendemos a esconder o nosso quinhão ruim, sobretudo quando mentimos. Ninguém mente para confessar barbaridades sobre si mesmo. Afinal, Nelly não ganharia nada mentindo a um forasteiro, que nada a ver tem com a história. Então, partindo da premissa de que a Nelly nos conta os acontecimentos como eles realmente foram, podemos analisar de fato o quanto as escolhas do Heathcliff e, principalmente, da Catherine são definidoras na trajetória deles.

Não podemos negar que há amor entre Catherine e Heathcliff. É um amor doentio? É um amor doentio, que a gente pode classificar muito mais como obsessão do que como amor de fato, mas isso é assunto para outra conversa. O fato é que a Catherine e o Heathcliff possuem uma ligação assombrosa e profunda, que nem mesmo a morte consegue quebrar, conferindo ao romance, muitas vezes, uma atmosfera gótica e de horror. Podemos provar tal sentimento entre os dois pela inesquecível (e queridinha em citação) passagem em que a Cathy confessa a Nelly tudo o que sente pelo rapaz:

“Eu não tenho mais motivos para me casar com Edgar Linton do que tenho para ficar no céu; e se o desgraçado do dono desta casa não tivesse rebaixado tanto Heathcliff, eu nem pensaria nisso. Casar-me com Heathcliff agora me degradaria; por isso, ele nunca vai saber quanto eu o amo; e o amo não por ele ser bonito, Nelly, mas por ele ser mais eu do que eu própria sou. Não sei de que nossas almas são constituídas, mas a dele e a minha são iguais, e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar de um relâmpago, ou a geada do fogo.”




Mesmo diante desta confissão, a garota ainda assim se casa com o Linton. Mas, por que a Cathy abre mão de sua “alma gêmea”? Será pela influência do irmão, que àquela altura já era um alcoólatra que mal se importava com as suas escolhas? Não, não acho que a Cathy é o tipo de pessoa que se influencia pela opinião alheia. Durante toda a primeira parte do livro, vemos que ela é de um gênio forte, chegando até mesmo a manipular quem está ao redor. Catherine sabia muito bem o que estava fazendo. Ela sabia que casar-se com Heathcliff rebaixaria seu status social, que o amor que sentiam um pelo outro não era suficiente para sua felicidade.


Catherine queria tudo ao mesmo tempo: a segurança financeira que Linton a proporcionava (também a emocional, pois acredito que era o que de mais valioso ela encontrava nele) e a paixão avassaladora que sentia pelo Heathcliff. Ela simplesmente não aceitava abrir mão de nenhuma delas. Podemos provar isso com essa mesma sequência em que Cathy confessa seus sentimentos à Nelly, quando ela fala dos seus planos e que nunca foi sua pretensão separar-se de Heathcliff:

“– Ele, praticamente abandonado? Nós, separados? – exclamou ela, com um tom de voz indignado. – Quem é que vai nos separar, diga-me? Essa pessoa terá o mesmo destino de Mílon! Não enquanto eu viver, Ellen, nem por nenhuma criatura mortal. (...) Nelly, agora eu estou entendendo, você acha que sou extremamente egoísta, mas nunca passou pela sua cabeça que, se Heathcliff e eu nos casássemos, nós seríamos mendigos? Por outro lado, se eu me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a sair de sua condição, e tirá-lo das garras do meu irmão.”

Entretanto, ela não contava que a rejeição fizesse com que Heathcliff saísse de seus domínios de vez, que essa frustração amorosa despertasse um monstro adormecido numa alma selvagem. Concordo com Nelly, quando ela fala que a Cathy não entende qual o papel ela irá assumir ao casar-se com Linton. Ela não consegue enxergar as conseqüências que suas escolhas exercem naqueles dois homens. Cathy erra, achando acertar. E é apenas quando se vê abandonada por Heathcliff, que ela entende a falta de sentido em suas ações e acaba casando-se com Edgar Linton por vingança pelo abandono e por falta de esperança em rever o amor de sua vida. E vai ser a mágoa do abandono e o arrependimento das escolhas que vão fazer com que Cathy sucumba. A não aceitação da realidade vai causar uma “loucura consciente” em Catherine, que vai levá-la até mesmo à morte.




Mas, ainda temos que falar das escolhas do Heathcliff, que não foram apenas reflexo das de Catherine. Foi muito mais que isso. Por mais que a decisão de Catherine tenha sido determinante em despertar o seu pior lado, ele foi o único responsável pelas maldades que cometeu. Heathcliff deixou que a paixão que sentia pela Cathy se transformasse em um ódio tão avassalador quanto era aquele sentimento. E se o ódio por si só já é destruidor, ele somado à paixão traz conseqüências impensáveis. E é apenas isso o que vemos durante o resto da narrativa: destruição. A covardia/ganância da Catherine e o ódio do Heathcliff acabam com tudo e como todos que estão ao redor, inclusive com eles mesmos.

Durante a narrativa da Nelly, ainda podemos ver que o Heathcliff nunca foi a mais inocente das crianças. Sim, ele era maltratado pelo Hindley, mas ele também usava isso contra o próprio Hindley. Heathcliff é frio de tal maneira que chega a assustar, mesmo enquanto criança. E quando ele volta, com uma lacuna de tempo em sua vida e com uma fortuna que ninguém sabe explicar, ele passa de vítima a pior dos algozes que já se viu. Heathcliff é a criatura mais amarga e infeliz que existe e não suporta que ninguém que esteja ao seu lado seja diferente dele.

Heathcliff é calculista, usa das fraquezas e sentimentos de todos ao seu redor para se vingar da vida, que foi tão dura com ele quanto a é com tantos outros. Não consegue amadurecer e aceitar que a vida é tão feita de frustrações quanto é de alegrias, transformando a vida de quem o cerca no mesmo inferno que é a sua alma. Ele faz isso com absolutamente todos com quem convive, ninguém escapa, nem mesmo o Hareton, com o qual se identifica, consegue aplacar a ira de seu coração. Até mesmo a Cathy recebe as consequências da amargura do Heathcliff. A rejeição o transformou em uma arma destruidora, o transformou em um monstro. Ele permitiu que uma frustração se transformasse em seu mestre e, assim, como a Catherine, o Heathcliff morrerá pela amargura de suas escolhas.

Bem, acho que é isso. Acho que Cathy e Heathcliff são autores e vítimas das próprias escolhas. Afinal, a gente colhe o que planta, não é? E quando não temos a sabedoria em mudar de direção quando algo não vai como planejamos, nós sucumbimos às nossas escolhas. Cathy passou a vida amargurada por ter perdido o Heathcliff, nunca dando uma chance ao Edgar que, mesmo possuindo defeitos gritantes, a amava verdadeiramente. Talvez, com ele, ela não tivesse o algo sobrenatural que tinha com o Heathcliff, mas ela poderia experimentar um amor calmo, que quiçá fosse suficiente para consolar sua alma selvagem. Já Heathcliff foi vítima do próprio ódio, tornou-se incapaz de sentir qualquer tipo de amor, porque foi rejeitado pela Cathy. Heathcliff foi carrasco com todos que o cercavam, mas o foi sobretudo consigo mesmo. Heathcliff jamais se deu a chance de ser feliz.

E, você? O que achou? Concorda comigo? Conta aqui nos comentários!

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