domingo, 17 de junho de 2018

Pollyanna e nossa influência uns sobre os outros



Título: Pollyanna | Autor: Eleanor H. Porter | Tradutor: Monteiro Lobato | Editora: Companhia Editora Nacional | Ano: 1985 | Nº de Páginas: 184| Livro Físico







CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤



Começo logo falando que eu sou suspeita de falar sobre o livro em questão. Como dá para perceber, meu nome, com todos esses “eles”, “ípsilon” e “enes”, saiu desse livro. Tenho uma ligação afetiva com ele, que não me deixa ser nada imparcial nessa impressão literária. Mas, afetividades à parte, se você ainda acreditar na minha humilde opinião, continuemos, pois Pollyanna tem muito a nos ensinar. Confesso que não é um baita livrão, mas, apesar de simples, ele nos traz uma positividade na forma como podemos ver o mundo. Não só pelo otimismo tão famoso que o jogo do contente transparece, mas também por mostrar o poder de transformação que exercemos uns nas vidas dos outros.
O livro nos conta a história de Pollyanna. Com apenas 11 anos, a menina já passou por muitos percalços, no entanto, sem nunca perder a alegria de viver e sem deixar de jogar o jogo do contente que seu pai lhe ensinou. Órfã de mãe e pai, Pollyanna acaba caindo nas mãos de sua tia, Miss Polly Harrington. Miss Polly, apesar jovem, linda e rica, é amarga e infeliz. Esconde um segredo de um amor mal resolvido e Pollyanna só sossegará quando descobrir o tal mistério, com a determinação de fazer sua tia jogar o jogo, no qual ela já é craque há muito tempo.
O jogo do contente começou quando em vez de receber uma boneca de presente de natal, Pollyanna recebeu muletas. Seu pai era missionário e tudo o que tinham vinha de doações, logo em vez de bonecas, Pollyanna acabou recebendo muletas. A menina, como é de se esperar, ficou triste. Mas, então, seu pai inventou o jogo do contente, que consiste em arranjar um motivo para ser feliz em qualquer situação, inclusive quando se ganha muletas no natal. O fato é que Pollyanna não precisava das muletas, tinha pernas saudáveis que poderiam levá-la onde ela quisesse e, por isso, ela poderia ficar contente. Desde então, Pollyanna jogou o jogo sem parar, até mesmo quando perdeu o seu maior parceiro da brincadeira, seu pai.
Porém, não é só a vida de tia Polly, que Pollyanna modifica. E, essa, para mim, é a maior lição que o livro passa. A menina vira a cidadezinha de cabeça para baixo, transformando as vidas de quem cruza com ela. Nancy, Mrs. Snow, Milly, Mr. Pendleton, Jimmy e até o pastor da igreja da cidade são transformados pela menina. Ninguém passa imune aos encantos de Pollyanna. Muito mais que otimismo, a menina distribui amor. Pollyanna é atenciosa com todos, qualquer um é merecedor de sua atenção e dedicação. A menina move mundos e fundos para fazer com que quem esteja ao seu redor esteja e seja feliz. Mesmo nos mais difíceis casos, Pollyanna consegue encontrar motivo para as pessoas sorrirem.
Além disso, quando passa por seu momento difícil, quando é atropelada e paira no ar a possibilidade da menina nunca mais andar, Pollyanna começa a colher todos os frutos que plantou. Praticamente toda a cidade, inclusive histórias das quais não sabemos durante a narrativa, aparece para fazer o pequeno anjo feliz. Tantas histórias e tantos motivos surgem para alegrar a menina, que nos emocionamos com todo o amor que ela recebe de volta. E isso é o que de mais precioso o livro nos passa, que podemos ser boas influências uns para os outros, que temos o poder de modificar para melhor a vida de quem está do lado, que, sim, dá para mudar para mudar o mundo ou, pelo menos, parte dele.
Em resumo, Pollyanna é aquele tipo de livro que te renova as esperanças. E embora seja incrível ler livros como Crime e Castigo, Morro dos Ventos Uivantes ou 1984, que nos tiram fora da caixinha e retratam o ser humano de forma crua, nos revelando nosso pior lado, ler livros como Pollyanna dá ao leitor um momento para respirar depois de leituras pesadas. Fazem-nos enxergar o outro lado da moeda, nos lembram que apesar de todo o atraso moral da humanidade, ainda podemos ser bons, ainda temos a capacidade de espalhar amor e ainda nos é permitido ter a esperança de que um dia teremos um mundo diferente. Leia Pollyanna! Atualize as boas energias dentro do peito

segunda-feira, 11 de junho de 2018

BELCHIOR – de norte a sul



FICHA TÉCNICA



Título: Belchior - Apenas um Rapaz Latino Americano
Autor: Jotabê Medeiros
Editora: Todavia
Ano: 2017
Nº de Páginas: 216
Livro Físico



CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA❤❤❤





Coloque o que para você é a melhor faixa de Belchior no seu PC, celular, radiola ou toca discos e vamos fazer um pequeno mergulho no universo do latino-americanos mais sagaz que a MPB já viu!

Com um alicerce literário raro, inspirado por João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Verlaine, Rimbaud, além de poesia clássica e da influencia dos cantos gregorianos – sua biblioteca era imensa e ele era um leitor assíduo -, Belchior fez de suas músicas verdadeiros poemas e manifestos. Alguns densos demais para se entender numa primeira experiência. De certo, a sua música não é própria para ser colocada no rádio e fazer outras coisas na casa, mas para ser contemplada, saboreada.

Certa vez disse ele: “Eu não faço música partidária. Eu sou a favor de um recrudescimento das qualidades individuais, diante de qualquer instituição e também da instituição política. Tem governo, eu sou contra. Tem partido, eu sou contra.”(p.106). Pode-se perceber a partir dessas palavras uma de suas maiores características: falar do ser humano acima de tudo. O que o fez alcançar questionamentos inerentes a toda a humanidade. No seu repertório, a liberdade é tida como mote. Do corpo à alma. Indo desde a liberdade política até os amores. “O meu trabalho todo foi voltado para uma crítica dos anos 60(...). Claro que a gente chegaria, naturalmente, a uma crítica do corpo, (...) da problemática do prazer (...)” (p.115). Mesmo as músicas com teor mais notadamente político falam dos questionamentos internos dos seres humanos, como se tudo fosse consequência da nossa imaturidade em viver. E é isso o que o torna fantástico.

Ao tentar classificar a obra de Belchior como arte ou entretenimento (deixando de lado qualquer desdobramento deste embate), com certeza ela se classificaria como arte. Belchior escrevia com imperatividade, sabia o terreno em que estava pisando, portanto sabia para onde apontar o rifle. “Eu sou um compositor da nova geração que está interessado em conteúdo. Eu me repito na medida em que a grande arte se repete (...) e a minha letra é mais importante que a música (...)”.




Sua obra caracterizou-se fortemente pelo embate geracional com o cenário musical vigente através da principal característica que dá a sua música ares de vanguarda: “Eu prefiro errar tentando inventar o avião do que trabalhar numa fábrica deles”(p.112). Ele ironizava as obras dos outros compositores, dentre eles Caetano Veloso, e dos novos ritmos em ascendência, como na discoteca “Corpos Terrestres”, de texto em latim, que era a língua mais importante da cultura romana, para satirizar o inglês exaltado nas discotecas a fim de um “refinamento”, quando estas não possuíam conteúdo. Esse é o papel do artista, questionar os padrões vigentes, o que é tido como sagrado e inviolável, independente da ferramenta utilizada: seu corpo, sua tinta, seu lápis ou seu papel. E por falar em quebrar padrões, Belchior nunca abandonou sua origem e exaltou o nordeste longe de uma forma pitoresca, estereotipada, fazendo uma música para os nordestinos e todas as outras pessoas.

      Por fim - e para não dar spoiler, já que é uma biografia - Belchior doou seu sangue cearense para as canções, funcionando como um grito necessário, uma identidade ativista, proveniente de sua origem humilde e simples. “Eu defino música popular de uma forma ideológica: é aquela que está ao lado do povo” (p. 55). Afinal, ele sabia que amar e mudar as coisas interessam mais.

Pollyanna e nossa influência uns sobre os outros

Título:  Pollyanna |  Autor:  Eleanor H. Porter |  Tradutor:  Monteiro Lobato |  Editora:  Companhia Editora Nacional |  Ano:  1985 | ...