domingo, 27 de maio de 2018

Mulherzinhas: Um Grito Feminino De Liberdade







Título: Mulherzinhas | Autor: Louise May Alcott | Editora: Martin Claret | Ano: 2013 | Nº de Páginas: 262 | Livro Físico






CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤




A primeira publicação de Mulherzinhas foi em 1868, há exatos 150 anos. Desde então, muito coisa mudou, sobretudo o espaço ocupado pela mulher na sociedade (graças a Deus!). Mas podemos analisar a obra de Louise May Alcott muito além dos contrastes sociais que ela revela. Mulherzinhas é tanto uma história de autoconhecimento e busca incessante pelo aperfeiçoamento do caráter, como também uma lição de como o amor e a paciência podem abrandar as diferenças e fazer delas algo construtivo para a convivência.
A obra é classificada como literatura infantojuvenil e depois que descobri isso, tudo começou a fazer sentido no texto, pois a pureza das personagens é algo marcante. O livro nos conta a história das quatro irmãs March: Meg, Jo, Beth e Amy, que têm entre 12 e 17 anos. Acompanhamos um ano na vida dessas meninas, que, digamos, não é um dos melhores. É que o Sr. March, o patriarca da família, está em campanha, lutando na guerra da Secessão (o romance se passa nos EUA, tá?). E, além disso, a família, que antes vivia em uma situação financeira abastada, agora passa por dificuldades.
A crise financeira da família é “provocada” pela bondade tão presente nesse lar. Os March não medem esforços para ajudar a quem precisa e tentam de todas as formas passar esses valores às filhas, que corrigem seus desvios de caráter através da caridade. Tanto é que a primeira cena da história é as meninas abrindo mão de uma ceia de natal farta em prol de uma família extremamente pobre. E tirando as muitas passagens que relacionam características como bondade e paciência apenas à realidade feminina, o livro oferece um bom número de conselhos para melhorarmos diante das frustrações e provações da vida. A paciência, a abnegação e a caridade são base na educação das March.
Amy é a filha caçula e tem talento para desenho e para escultura. Seu principal defeito é ser egoísta e orgulhosa, não conseguindo se doar tão facilmente nem perdoar quem a ofende (tão comum a todos nós, não é?). Amy vai passar por inúmeras provações até entender a necessidade de mudar a si mesma e de perdoar aos outros para que a vida fique em paz, para que se possa prestar atenção às coisas que mais importam: as pessoas que amamos. Amy encontrará isso na fé, na oração e na meditação, que aprenderá com uma senhora francesa que trabalha para sua tia March.
Beth, a segunda irmã mais nova, é extremamente talentosa e apaixonada pela música. É, das quatro, a que menos possui defeitos morais. Aliás, posso afirmar que o defeito da Beth é muito mais uma limitação do que propriamente um defeito. É que Beth é excessivamente tímida. A timidez é tamanha que chega quase a ser uma fobia. Mas, a música e o amor da família e dos amigos Laurence a ajudará a superar os obstáculos que uma personalidade tímida e introspectiva impõe em um mundo para extrovertidos.
Meg, a mais velha das irmãs, é doce e bela. Assim como a Jo, trabalha fora para ajudar na renda familiar como preceptora de uma família rica. Meg é a que mais sente falta da antiga condição financeira da família. Dona de uma grande vaidade, ela vai ter que lutar contra a ambição e a necessidade de manter as aparências, resistindo às tentações da vida da alta sociedade.
Jo, a segunda mais velha, é a nossa protagonista e de longe um dos personagens mais interessantes da trama. É enérgica, impetuosa e corajosa. Dada as artes de escrever, Jo sonha em sustentar a si própria e à família, em pleno século XIX, com seu talento. Seu principal defeito é não conseguir controlar a raiva e ser impulsiva. Mas, com a ajuda e os conselhos da mãe, Jo trabalhará em seu aperfeiçoamento moral. E usará a impulsividade para realizar boas e corajosas ações (é de fazer cair o queixo!). Mas, não deixei a Jo por último à toa, há muito o que falar dessa garota!
Mesmo sendo considerado um “romance de formação” voltado para meninas do século XIX, ou seja, com o intuito de ensinar “meninas a serem meninas”,Mulherzinhas tem em Jo um grito de liberdade. Jo afirma o tempo inteiro querer ser um garoto, e embora toda resenha que vi afirme existir traços de transexualidade nela, eu discordo disso e vou te explicar por quê. Sim, Jo gosta de coisas geralmente relacionadas ao universo masculino, como os “esportes, trabalhos e maneiras de rapaz”, em suas próprias palavras, mas isso não significa que ela é exatamente um garoto. Dizer isso é continuar tentando encaixá-la em caixas azuis ou rosas. Acredito (disse acredito, pois pouco sei do assunto) que transexualidade vai muito além de aptidões a certos gosto que a sociedade classifica como femininos ou masculinos, é sobre como você se sente em relação ao seu próprio corpo e esse não parece ser o caso da Jo.
Ela, na verdade, é uma moça inconformada com o espaço que a mulher possuía na sociedade. Jo é expansiva, corajosa e aventureira e isso não cabe a uma mulher em pleno século XIX (às vezes nem no século XXI, não é?). Ficar nas sombras de um homem é algo fora de cogitação para essa menina. Jo se sente frustrada com o papel que lhe resta e não propriamente com seu corpo ou sua sexualidade, que durante toda a narrativa, não parece ainda nem ter sido despertada. Jo é na realidade feminista, mesmo que tal termo ainda não fosse tão disseminado na época. Ela quer ser independente, livre e respeitada, não por se encaixar em padrões, mas por seus talentos e capacidade. Ela é realmente inspiradora.
Mas, quero ainda chamar a atenção para uma outra coisa: a necessidade ainda presente de rotular mulheres. Se antes Jo era a inadequada, hoje Meg o seria. Meg que se torna devotada ao Sr. Brooke por apaixonar-se por ele, hoje seria considera submissa (nas palavras de Jo). Mas, que mal há em devotar-se ao lar e a educação de filhos? Menosprezar mulheres que optaram por esse estilo de vida é continuar afirmando que trabalhos geralmente exercidos por mulheres são de baixa importância. Afinal, babás e empregadas domésticas não merecem respeito? Então, por que mães que se dedicam aos filhos e a casa também não? Será preciso homens ocupar tais espaços para que tais tarefas sejam consideradas relevantes? Vamos repensar isso! E lembrando, ser dedicada e ser submissa são duas coisas completamente diferentes.
Bem, esse texto já está extenso, e em tempos de redes sociais, te acho um vencedor em ter chegado até aqui, mas eu não poderia acabá-lo sem antes falar sobre a Sra. March, a matriarca da família. Ela é simplesmente incrível! É a mãe que eu gostaria de ser um dia para os possíveis e futuros filhos que terei. Ela é compreensiva sem, no entanto, ser permissiva. Divide seus anseios e confessa seus próprios desvios de caráter para ajudar e educar suas filhas. Por isso, ela tem meninas tão especiais.
E, assim, termino esse texto e peço que ao ler Mulherzinhas não fiquem só no pejorativo que esse diminutivo parece transparecer. Afinal, ser “mulherzinha” é realmente espetacular! Além do mais,Mulherzinhas é ousado até o ponto em que se era permitido ser no século XIX, Jo é a prova viva disso, além de nos oferecer uma perspectiva positiva sobre como somos como humanidade, considerando que defeitos morais podem até existir, mas que são passíveis de correção se ajudarmos uns aos outros nessa empreitada que é a vida.

Me ajudaram a construir esse texto:



domingo, 13 de maio de 2018

Dom Casmurro: Paranoia ou Traição?



Título: Dom Casmurro | Autor: Machado de Assis Editora: Companhia Editora Nacional | Ano: 2007 | Nº de Páginas: 368 | Livro Físico |






CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤ 


      Já perdi as contas de quantas vezes reli esse livro, que, aliás, é um dos meus “preferidos da vida”. A primeira vez que o li foi por influência total de um professor do ensino médio, eu devia ter 14 ou 15 anos. Professor Antônio falava de uma forma tão apaixonada sobre literatura, que era quase impossível não ser contaminada pelo “bichinho” da curiosidade. Lembro que ele era especialmente encantado por Machado de Assis e, por causa disso, acabei lendo todos os livros que eu tinha dele aqui em casa e também os que tinham lá na escola. E não foi diferente com Dom Casmurro.
Dom Casmurro é aquele tipo de livro que a cada vez que você o reler, você consegue alcançar uma nova perspectiva sobre ele. É um livro “vivo” que mesmo que se passe séculos e séculos, ele ainda assim vai continuar fazendo sentido. Isso acontece porque ele fala de algo intrínseco à alma humana, fala de sentimentos que todos nós sentimos ou sentiremos algum dia, mesmo que, às vezes, nós não nos orgulhemos tanto assim deles. E o mais fantástico de Dom Casmurro é que Machado de Assis não nos deixa nenhuma brecha para certezas. Com as mesmas palavras, Capitu pode ser culpada ou inocente. E tal sentença só depende do leitor, da “bagagem” que ele carrega na vida.

É certo que desde a sua primeira publicação, no ano de 1900, até a década de 1960, quando uma nova interpretação foi dada pela americana Helen Cardwell, Capitu era definitivamente culpada. Bentinho era, sem sombra de dúvidas, a vítima da história, mesmo ele sendo o único a ter voz na narrativa. O machismo que vigorava na sociedade, por décadas a fio, impediu que a maioria das pessoas conseguisse identificar a genialidade machadiana. O tempo inteiro o próprio Bentinho, enquanto nos conta a história, desdiz o que, ao que parece, ele tem certeza: a traição de Capitu e Escobar.
Eu, particularmente, sou da opinião de que Capitu era inocente. E logo deixo avisado que esse texto é praticamente uma defesa dela. Desde a primeira vez que o li, Bentinho não conseguiu me convencer de que ele era a vítima. Confesso que pareço com Bentinho muito mais do que gostaria. Tenho, infelizmente, um quê de Casmurro e consigo identificar um ciumento de longe (olha a minha pretensão!...). Desconfiado por natureza, o ciúme é presença constante no coração e na mente do Casmurro. E todo mundo sabe que quando o ciúme entra numa relação, o amor sai pela outra porta.
Os motivos pelos quais Bentinho condena Capitu são, no mínimo, duvidosos. O momento no qual ele tem certeza da culpa da sua esposa é durante o enterro de Escobar. Capitu chora e não podia ser diferente. Afinal, Escobar é também um amigo para ela, além de ser marido de Sancha, sua melhor amiga. Sem contar com habilidade humana, sobretudo nas horas de dor, de se colocar no lugar do outro. Quem sabe Capitu, naquele momento, não se enxergasse em Sancha ao se imaginar perdendo Bentinho?
“A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela. Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala.” (p. 297)
Outro fato em que se fundamenta a certeza de Bentinho são os olhos de Ezequiel, que a princípio, era tido apenas como um bom imitador. O menino era bom em imitar, imitava José Dias e a prima Justina, mas era incomparável na imitação a Escobar. O pai até então nada de estranho achava, mas depois do episódio do enterro, o Casmurro começa enxergar Escobar no olhar e nos trejeitos do pequeno. Betinho simplesmente não suporta a visão do filho, ao ponto de até tentar oferecer-lhe veneno.
Mas, como já disse, nosso narrador duvida toda hora da sua certeza. Por exemplo, ele põe em dúvida se aquela semelhança entre Ezequiel e Escobar é mesmo fruto da traição de Capitu ou apenas coincidências estranhas da vida. Quando ainda está no seminário, Bentinho vai visitar Capitu na casa de Sancha, que na ocasião estava doente. Num quadro na parede, está uma pintura da falecida mãe da enferma. Bentinho repara como é surpreendente a semelhança entre a defunta e Capitu, mesmo elas não tendo parentesco algum. Mais tarde, alguns capítulos depois, Bentinho evoca essa mesma constatação para por a prova a sua certeza.
“Gurgel, voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moça, perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. (...) Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Também achava que as ações eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. (...) Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.” (p. 210 e 211)
“No intervalo, evocara as palavras do finado Gurgel, quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher, parecido com Capitu. Hás de lembrar-te delas; se não, relê o capítulo, cujo número não ponho aqui, por não me lembrar qual seja, mas não fica longe. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis...” (p. 327 e 328)
Vale ainda ressaltar que é a própria Capitu que constata a semelhança entre Ezequiel e Escobar. E ela mesma comenta isso com o marido. Assim, fiquei imaginando: a troco de que ela incutiria uma dúvida na cabeça do marido caso fosse realmente culpada? Sobretudo sendo Bentinho ciumento do jeito que era... Quem não se lembra do episódio dos braços de fora? Se não o lembra, vide o capítulo 105. Bentinho é paranóico!

Bem, eu até poderia escrever outro livro, explicando os motivos por que a Capitu é inocente. E um outro alguém poderia escrever outro, explicando por que ela é culpada. E usando os mesmos fatos para isto! É isso que a genialidade de Machado de Assis faz... Mas acho que vou parar por aqui. Acho que meu papel está feito. Espero ter lhe despertado a vontade de ler a obra, se é que ainda não a leu. E também espero ter lhe convencido que Capitu era inocente, mesmo que ela tivesse olhos oblíquos de cigana, e culpado mesmo nessa história toda era o ciúme de Bentinho.
Então, e para você? Foi traição ou só paranoia?





Também me ajudaram a escrever esse texto:




domingo, 6 de maio de 2018

Na Minha Pele e os desdobramentos de duas vidas tão distantes e tão próximas

FICHA TÉCNICA



Título: Na Minha Pele
Roteiro: Lázaro Ramos
Editora: Objetiva
Ano: 2017
Nº de Páginas: 147
Livro Físico


CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤





A história se repete. Eu já sabia disso através das pessoas com as quais convivi, que não passaram de uma região circunscrita pela minha casa e a universidade, mas eu nunca tinha visto uma história tão parecida com a minha e vindo de uma pessoa tão distante. Contudo o fato é que a história se repete e deve haver várias outras pessoas com a mesma impressão que eu. E quando eu falo se repete, não estou querendo aqui retratar a história comum da maioria da população pobre deste país, mas de algo mais sutil que as estatísticas, mais humano. Os medos, os sonhos, o valor familiar, as reflexões, os hábitos... Nesta impressão eu sou mais do que uma intermediadora na terceira pessoa entre o livro e você, paciente leitor, essa história também é minha e é nessa perceptiva que seguirão as palavras abaixo.

Quando eu comprei esse livro tinha acabado uma oficina de escrita dramatúrgica (para quem não me conhece, não sou da área de humanas e essa oficina foi deveras desafiante), onde tive uma experiência com escritas pessoais de memórias. Passando numa livraria enxerguei o tal livro e achei que ele tinha tudo a ver com o momento que vivera e que ainda estava latente em mim. Não esperava o que estava por vir, estava apenas curiosa. Li-lo em dois dias (recorde pra mim que tenho dificuldade com leitura) e foi uma das leituras mais empáticas que já experimentei: às vezes eu não sabia quem estava no lugar de quem. Mas é necessário deixar bem claro que as partes Izabela – Lázaro Ramos são apenas recortes da história. Ele fala muito sobre o racismo, o preconceito, sobre ser negro e ser ator negro, e isto não faz parte de mim que sou branca.

De origem pobre, com o mais puro e ingênuo desejo de sermos artistas (ter esse desejo quando se tem pais assalariados é de uma ingenuidade tão forte que gera comicidade, piada. Fica só no desejo mesmo.) num país que marginaliza a cultura a outras preferências econômicas, somos. E seguem outras coincidências no caminho percorrido da vida, como a personagem da família que veio do interior para a cidade a fim de ascender economicamente (leia-se ter dignidade) e traz consigo os familiares para que consigam ter algum sopro de bem estar; a mãe e/ou tia que inicia sua vida profissional como empregada doméstica; o discurso várias vezes repetido - que de tanto repetido, impregna – de que a ascensão social (leia-se ter dignidade) só vem por meio dos estudos; e a aposta, o desejo e a esperança de um futuro diferente, pelos ascendentes, para o filho, matriculando-o numa escola particular. Quanto a nós, inseridos nessa realidade, reverbera o medo e angústia de talvez não viver o sonho, e tendo a necessidade, quase sacramental, de agradecer por tudo, porque claro, podia ser muito pior, como já tinha sido.

Lázaro conduz muito bem seu relato pessoal, o fluxo de ideais corre naturalmente e há um divagar lógico e coerente. O fio condutor se movimenta de forma tão natural que nem se percebe o ziguezague do texto. Sem falar na modéstia do narrador. Em nenhum momento há um olhar narcisista e umbigocêntrico, antes uma necessidade – e responsabilidade- política para a obra. Conhecer a obra de Lázaro, para quem passa distante da realidade da sua origem, é colocar-se num lugar de empatia, é saber o que se passa nos pensamentos das crianças pobres e negras. O dia a dia das casas, a influência da TV como praticamente a única fonte de conhecimento – e como única, duvidosa -, a falta de livros, as brincadeiras de bairro, os amigos da mesma rua e a liberdade. O elo que une as crianças de todo o Brasil, só diferenciando um costume aqui e um sotaque ali. E nesse contexto, ouso dizer, há ainda algo mais comum entre todas as crianças que preenchem a estatística da pobreza nesse país: o som das seis palavras mais ouvidas em todo período colegial: “estude para ser alguém na vida”. Escutei essa frase a vida inteira, mas só me peguei refletindo sobre ela em algum momento depois dos 20 anos. Ora, se o “ser alguém” só é conquistado a partir de uma premissa, é porque se preconiza que todas as pessoas que não estudam não são alguém. Só que esse “estude”, vai bem mais além do que seu significado literal. Quer dizer ter dinheiro, e com isso, condições econômicas básicas para ter uma vida dignamente confortável. E assim veem-se os pobres a si e aos outros como ninguém na vida, reverberando num autorreflexo de violência que passa de geração para geração. Para Lázaro isso significou um curso técnico em patologia clinica, para mim, o curso de engenharia civil.

Mas se hoje Lázaro conta com um espaço amplo para propagar suas ideias e dar suas opiniões através de seus textos, da sua dramaturgia e da TV, não foi sempre assim. Estudante em dupla jornada, no colégio formal e no teatro, e depois trabalhador também em dupla jornada, ele cultivava uma rotina exaustiva que consumia seu dia inteiro. Mas a desistência não veio. Só largou o osso (o trabalho como técnico de patologia), quando seu jardim artístico estava bem adubado e com prosperidade para novas flores. Porém os desafios não pararam por aí, ser o único negro, e de origem pobre, numa grande maioria classe artística branca e de classe social privilegiada o colocou (eu também senti isso por ter feito uma graduação historicamente elitizada) numa posição desconcertante: poucas pessoas ali podem saber o quão desconfortável é olhar para tudo que a maioria acha normal e achar-se um estranho. Saber que aquele mundo também pode ser seu, mas que tem outro, mais comum nas periferias, que se comunica muito melhor com você.

“E assim desenvolveu uma carreira cujas informações você pode acessar em blogs, sites e entrevistas. O que não está disponível nesses lugares é algo que permaneceu comigo durante todo esse tempo, algo sensorial e difícil de descrever com palavras. Os desafios de ascender socialmente e se inserir em outra realidade sendo uma exceção. Os olhares reais e os de soslaio. Os subtextos que se percebem nas entrelinhas. Os medos e as sutilezas do preconceito. A solidão.” (p.60)

          “Devemos fazer uma leitura de quem somos. [...] A exceção simplesmente confirma a regra.” (p.63)

     Por fim, ele fala muito bem e de forma não estéril sobre empoderamento e autoafirmação da cultura negra (brasileira), além de formação de identidade, amor-próprio e autoestima. As dificuldades sofridas na sua pele proveniente de um país, ainda, racista e as reflexões como consequência de toda uma história de negritude.

A leitura dessa obra pede mais que uma curiosidade biográfica, é um recorte histórico de alguém que excedeu à regra.

Espero que tenham gostado da impressão J. Vistam-se de Lázaro Ramos também e compartilhem comigo seus sentimentos. Boa leitura :*

P.S.: Só decidi fazer uma impressão desse modo, tão pessoal, por causa da seguinte citação tirada do livro: “a necessidade de contar a própria história passa pela conquista da identidade”. (p.63)

Pollyanna e nossa influência uns sobre os outros

Título:  Pollyanna |  Autor:  Eleanor H. Porter |  Tradutor:  Monteiro Lobato |  Editora:  Companhia Editora Nacional |  Ano:  1985 | ...