domingo, 6 de maio de 2018

Na Minha Pele e os desdobramentos de duas vidas tão distantes e tão próximas

FICHA TÉCNICA



Título: Na Minha Pele
Roteiro: Lázaro Ramos
Editora: Objetiva
Ano: 2017
Nº de Páginas: 147
Livro Físico


CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤





A história se repete. Eu já sabia disso através das pessoas com as quais convivi, que não passaram de uma região circunscrita pela minha casa e a universidade, mas eu nunca tinha visto uma história tão parecida com a minha e vindo de uma pessoa tão distante. Contudo o fato é que a história se repete e deve haver várias outras pessoas com a mesma impressão que eu. E quando eu falo se repete, não estou querendo aqui retratar a história comum da maioria da população pobre deste país, mas de algo mais sutil que as estatísticas, mais humano. Os medos, os sonhos, o valor familiar, as reflexões, os hábitos... Nesta impressão eu sou mais do que uma intermediadora na terceira pessoa entre o livro e você, paciente leitor, essa história também é minha e é nessa perceptiva que seguirão as palavras abaixo.

Quando eu comprei esse livro tinha acabado uma oficina de escrita dramatúrgica (para quem não me conhece, não sou da área de humanas e essa oficina foi deveras desafiante), onde tive uma experiência com escritas pessoais de memórias. Passando numa livraria enxerguei o tal livro e achei que ele tinha tudo a ver com o momento que vivera e que ainda estava latente em mim. Não esperava o que estava por vir, estava apenas curiosa. Li-lo em dois dias (recorde pra mim que tenho dificuldade com leitura) e foi uma das leituras mais empáticas que já experimentei: às vezes eu não sabia quem estava no lugar de quem. Mas é necessário deixar bem claro que as partes Izabela – Lázaro Ramos são apenas recortes da história. Ele fala muito sobre o racismo, o preconceito, sobre ser negro e ser ator negro, e isto não faz parte de mim que sou branca.

De origem pobre, com o mais puro e ingênuo desejo de sermos artistas (ter esse desejo quando se tem pais assalariados é de uma ingenuidade tão forte que gera comicidade, piada. Fica só no desejo mesmo.) num país que marginaliza a cultura a outras preferências econômicas, somos. E seguem outras coincidências no caminho percorrido da vida, como a personagem da família que veio do interior para a cidade a fim de ascender economicamente (leia-se ter dignidade) e traz consigo os familiares para que consigam ter algum sopro de bem estar; a mãe e/ou tia que inicia sua vida profissional como empregada doméstica; o discurso várias vezes repetido - que de tanto repetido, impregna – de que a ascensão social (leia-se ter dignidade) só vem por meio dos estudos; e a aposta, o desejo e a esperança de um futuro diferente, pelos ascendentes, para o filho, matriculando-o numa escola particular. Quanto a nós, inseridos nessa realidade, reverbera o medo e angústia de talvez não viver o sonho, e tendo a necessidade, quase sacramental, de agradecer por tudo, porque claro, podia ser muito pior, como já tinha sido.

Lázaro conduz muito bem seu relato pessoal, o fluxo de ideais corre naturalmente e há um divagar lógico e coerente. O fio condutor se movimenta de forma tão natural que nem se percebe o ziguezague do texto. Sem falar na modéstia do narrador. Em nenhum momento há um olhar narcisista e umbigocêntrico, antes uma necessidade – e responsabilidade- política para a obra. Conhecer a obra de Lázaro, para quem passa distante da realidade da sua origem, é colocar-se num lugar de empatia, é saber o que se passa nos pensamentos das crianças pobres e negras. O dia a dia das casas, a influência da TV como praticamente a única fonte de conhecimento – e como única, duvidosa -, a falta de livros, as brincadeiras de bairro, os amigos da mesma rua e a liberdade. O elo que une as crianças de todo o Brasil, só diferenciando um costume aqui e um sotaque ali. E nesse contexto, ouso dizer, há ainda algo mais comum entre todas as crianças que preenchem a estatística da pobreza nesse país: o som das seis palavras mais ouvidas em todo período colegial: “estude para ser alguém na vida”. Escutei essa frase a vida inteira, mas só me peguei refletindo sobre ela em algum momento depois dos 20 anos. Ora, se o “ser alguém” só é conquistado a partir de uma premissa, é porque se preconiza que todas as pessoas que não estudam não são alguém. Só que esse “estude”, vai bem mais além do que seu significado literal. Quer dizer ter dinheiro, e com isso, condições econômicas básicas para ter uma vida dignamente confortável. E assim veem-se os pobres a si e aos outros como ninguém na vida, reverberando num autorreflexo de violência que passa de geração para geração. Para Lázaro isso significou um curso técnico em patologia clinica, para mim, o curso de engenharia civil.

Mas se hoje Lázaro conta com um espaço amplo para propagar suas ideias e dar suas opiniões através de seus textos, da sua dramaturgia e da TV, não foi sempre assim. Estudante em dupla jornada, no colégio formal e no teatro, e depois trabalhador também em dupla jornada, ele cultivava uma rotina exaustiva que consumia seu dia inteiro. Mas a desistência não veio. Só largou o osso (o trabalho como técnico de patologia), quando seu jardim artístico estava bem adubado e com prosperidade para novas flores. Porém os desafios não pararam por aí, ser o único negro, e de origem pobre, numa grande maioria classe artística branca e de classe social privilegiada o colocou (eu também senti isso por ter feito uma graduação historicamente elitizada) numa posição desconcertante: poucas pessoas ali podem saber o quão desconfortável é olhar para tudo que a maioria acha normal e achar-se um estranho. Saber que aquele mundo também pode ser seu, mas que tem outro, mais comum nas periferias, que se comunica muito melhor com você.

“E assim desenvolveu uma carreira cujas informações você pode acessar em blogs, sites e entrevistas. O que não está disponível nesses lugares é algo que permaneceu comigo durante todo esse tempo, algo sensorial e difícil de descrever com palavras. Os desafios de ascender socialmente e se inserir em outra realidade sendo uma exceção. Os olhares reais e os de soslaio. Os subtextos que se percebem nas entrelinhas. Os medos e as sutilezas do preconceito. A solidão.” (p.60)

          “Devemos fazer uma leitura de quem somos. [...] A exceção simplesmente confirma a regra.” (p.63)

     Por fim, ele fala muito bem e de forma não estéril sobre empoderamento e autoafirmação da cultura negra (brasileira), além de formação de identidade, amor-próprio e autoestima. As dificuldades sofridas na sua pele proveniente de um país, ainda, racista e as reflexões como consequência de toda uma história de negritude.

A leitura dessa obra pede mais que uma curiosidade biográfica, é um recorte histórico de alguém que excedeu à regra.

Espero que tenham gostado da impressão J. Vistam-se de Lázaro Ramos também e compartilhem comigo seus sentimentos. Boa leitura :*

P.S.: Só decidi fazer uma impressão desse modo, tão pessoal, por causa da seguinte citação tirada do livro: “a necessidade de contar a própria história passa pela conquista da identidade”. (p.63)

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