Título: Na Minha Pele
Roteiro: Lázaro Ramos
Roteiro: Lázaro Ramos
Editora: Objetiva
Ano: 2017
Nº de Páginas: 147
Livro Físico
Ano: 2017
Nº de Páginas: 147
Livro Físico
CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤
A
história se repete. Eu já sabia disso através das pessoas com as quais convivi,
que não passaram de uma região circunscrita pela minha casa e a universidade, mas eu nunca tinha visto uma história tão parecida com a minha e vindo de uma
pessoa tão distante. Contudo o fato é que a história se repete e deve haver várias
outras pessoas com a mesma impressão que eu. E quando eu falo se repete, não
estou querendo aqui retratar a história comum da maioria da população pobre
deste país, mas de algo mais sutil que as estatísticas, mais humano. Os
medos, os sonhos, o valor familiar, as reflexões, os hábitos... Nesta impressão
eu sou mais do que uma intermediadora na terceira pessoa entre o livro e você,
paciente leitor, essa história também é minha e é nessa perceptiva que seguirão
as palavras abaixo.
Quando
eu comprei esse livro tinha acabado uma oficina de escrita dramatúrgica (para
quem não me conhece, não sou da área de humanas e essa oficina foi deveras
desafiante), onde tive uma experiência com escritas
pessoais de memórias. Passando numa livraria enxerguei o tal livro e achei que
ele tinha tudo a ver com o momento que vivera e que ainda estava latente em
mim. Não esperava o que estava por vir, estava apenas curiosa. Li-lo em dois
dias (recorde pra mim que tenho dificuldade com leitura) e foi uma das leituras
mais empáticas que já experimentei: às vezes eu não sabia quem estava no lugar
de quem. Mas é necessário deixar bem claro que as partes Izabela – Lázaro Ramos
são apenas recortes da história. Ele fala muito sobre o racismo, o preconceito,
sobre ser negro e ser ator negro, e isto não faz parte de mim que sou branca.
De
origem pobre, com o mais puro e ingênuo desejo de sermos artistas (ter esse
desejo quando se tem pais assalariados é de uma ingenuidade tão forte que gera
comicidade, piada. Fica só no desejo mesmo.) num país que marginaliza a cultura
a outras preferências econômicas, somos. E seguem outras coincidências no
caminho percorrido da vida, como a personagem da família que veio do interior
para a cidade a fim de ascender economicamente (leia-se ter dignidade) e
traz consigo os familiares para que consigam ter algum sopro de bem estar; a mãe e/ou tia que inicia sua vida profissional como
empregada doméstica; o discurso várias vezes repetido - que de tanto
repetido, impregna – de que a ascensão social (leia-se ter dignidade) só vem
por meio dos estudos; e a aposta, o desejo e a esperança de um futuro
diferente, pelos ascendentes, para o filho, matriculando-o numa escola
particular. Quanto a nós, inseridos nessa realidade, reverbera o medo e
angústia de talvez não viver o sonho, e tendo a necessidade, quase sacramental,
de agradecer por tudo, porque claro, podia ser muito pior, como já tinha sido.
Lázaro
conduz muito bem seu relato pessoal, o fluxo de ideais corre naturalmente e há
um divagar lógico e coerente. O fio condutor se movimenta de forma tão natural
que nem se percebe o ziguezague do texto. Sem falar na modéstia do narrador. Em
nenhum momento há um olhar narcisista e umbigocêntrico, antes uma necessidade –
e responsabilidade- política para a obra. Conhecer a obra de Lázaro, para quem
passa distante da realidade da sua origem, é colocar-se num lugar de empatia, é
saber o que se passa nos pensamentos das crianças pobres e negras. O dia a dia
das casas, a influência da TV como praticamente a única fonte de conhecimento –
e como única, duvidosa -, a falta de livros, as brincadeiras de bairro, os
amigos da mesma rua e a liberdade. O elo que une as crianças de todo o Brasil,
só diferenciando um costume aqui e um sotaque ali. E nesse contexto, ouso
dizer, há ainda algo mais comum entre todas as crianças que preenchem a
estatística da pobreza nesse país: o som das seis palavras mais ouvidas em todo
período colegial: “estude para ser alguém na vida”. Escutei essa frase a vida
inteira, mas só me peguei refletindo sobre ela em algum momento depois dos 20 anos.
Ora, se o “ser alguém” só é conquistado a partir de uma premissa, é porque se
preconiza que todas as pessoas que não estudam não são alguém. Só que
esse “estude”, vai bem mais além do que seu significado literal. Quer dizer ter
dinheiro, e com isso, condições econômicas básicas para ter uma vida dignamente
confortável. E assim veem-se os pobres a si e aos outros como ninguém na vida,
reverberando num autorreflexo de violência que passa de geração para geração.
Para Lázaro isso significou um curso técnico em patologia clinica, para mim, o
curso de engenharia civil.
Mas
se hoje Lázaro conta com um espaço amplo para propagar suas ideias e dar suas
opiniões através de seus textos, da sua dramaturgia e da TV, não foi sempre
assim. Estudante em dupla jornada, no colégio formal e no teatro, e depois
trabalhador também em dupla jornada, ele cultivava uma rotina exaustiva que
consumia seu dia inteiro. Mas a desistência não veio. Só largou o osso (o
trabalho como técnico de patologia), quando seu jardim artístico estava bem
adubado e com prosperidade para novas flores. Porém os desafios não pararam por
aí, ser o único negro, e de origem pobre, numa grande maioria classe artística
branca e de classe social privilegiada o colocou (eu também senti isso por ter
feito uma graduação historicamente elitizada) numa posição desconcertante:
poucas pessoas ali podem saber o quão desconfortável é olhar para tudo que a
maioria acha normal e achar-se um estranho. Saber que aquele mundo também pode
ser seu, mas que tem outro, mais comum nas periferias, que se
comunica muito melhor com você.
“E assim desenvolveu
uma carreira cujas informações você pode acessar em blogs, sites e entrevistas.
O que não está disponível nesses lugares é algo que permaneceu comigo durante
todo esse tempo, algo sensorial e difícil de descrever com palavras. Os
desafios de ascender socialmente e se inserir em outra realidade sendo uma
exceção. Os olhares reais e os de soslaio. Os subtextos que se percebem nas
entrelinhas. Os medos e as sutilezas do preconceito. A solidão.” (p.60)
“Devemos fazer uma
leitura de quem somos. [...] A exceção simplesmente confirma a regra.” (p.63)
Por fim, ele fala
muito bem e de forma não estéril sobre empoderamento e autoafirmação da cultura
negra (brasileira), além de formação de identidade, amor-próprio e autoestima.
As dificuldades sofridas na sua pele proveniente de um país, ainda, racista e
as reflexões como consequência de toda uma história de negritude.
A
leitura dessa obra pede mais que uma curiosidade biográfica, é um recorte
histórico de alguém que excedeu à regra.
Espero que tenham
gostado da impressão J. Vistam-se de Lázaro
Ramos também e compartilhem comigo seus sentimentos. Boa leitura :*
P.S.: Só decidi fazer
uma impressão desse modo, tão pessoal, por causa da seguinte citação tirada do
livro: “a necessidade de contar a própria história passa pela conquista da
identidade”. (p.63)

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