domingo, 22 de abril de 2018

A Diferença Invisível. Mas o que deve realmente ser visível?

FICHA TÉCNICA



Título: A Diferença Invisível
Roteiro: Julie Dachez 

Adaptação de roteiro, desenho e cores: Mademoiselle Caroline
Tradutora: Renata Silveira
Editora: nemo
Ano: 2017
Nº de Páginas: 190
Livro Físico



CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤



Nós, seres humanos fundamentalmente sociáveis, nos rotulamos e regramos nossos comportamentos com vários e intensos delimitantes. Em paradoxo, a voz cada vez mais ecoada pela sociedade clama pela diversidade e, esta, parece ser cada vez mais difícil de ser alcançada sem nenhum trauma psicológico. Em A diferença Invisível, a jovem Marguerite é como cada um de nós, com milhões de particularidades, mas não consegue disfarçar bem como a maioria das pessoas. Margô é identificada depois dos 27 anos com síndrome de Asperger e sofre muito em seu dia a dia por não ser aceita pelos seus amigos, colegas de trabalho, e, algumas vezes, seu namorado.

“Acho que chegamos ao ponto em que posso dizer com certeza que Marguerite está cansada. Cansada de ser julgada o tempo todo. Cansada de tentar ser como as outras pessoas. Pessoas com as quais ela se parece por fora, nada mais. Cansada de tudo isso.”




Sem se conhecer, ela pratica uma autoviolência todos os dias: querer ser igual as outras pessoas! De crises físicas e existenciais até a descoberta de sua condição psíquica, Marguerite nos ensina que as censuras às diferenças estão em todo lugar e nos pequenos detalhes: nos olhares, nos cochichos, nos conselhos...Além de nos colocar num ponto de escuta e respeito pouco experimentado.

Marguerite é a própria autora que desenvolveu essa HQ a fim de ajudar as outras tantas pessoas aspies – pessoas que tem síndrome de Asperger- a se encontrarem. Isto é de estrema importância e pode ser visto com emoção quando ela descobre ser portadora da síndrome e pode, finalmente, sentir-se incluída. É incrível como o sentimento de marginalização é forte e pode nos deixar doentes. E é por isso que essa não é uma história, apenas, sobre e para autistas, mas sobretudo de diferenças: de respeito, tolerância, de autoaceitação e fortalecimento do amor-próprio. Enfim, como é uma HQ, não quero falar muito para não dar spoiler. Se deliciem com essa leitura refrescante, revigorante e muitíssimo linda, depois me falem o que acharam, que tal?

“Sua diferença não é parte de um problema, mas a solução.
“É um remédio para a nossa sociedade, doente da normalidade.”

 Julie Dachez

domingo, 15 de abril de 2018

Dois livros: um universo Extraordinário


FICHA TÉCNICA

Título: Extraordinário | Autor: R.J. Palacio | Tradutor: Rachel Agavino | Editora: Intrínseca | Ano: 2013 | Nº de Páginas: 318 | Livro Físico | CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤



Título: Auggie & Eu, Três Histórias Extraordinárias | Autor: R.J. Palacio | Tradutor: Rachel Agavino | Editora: Intrínseca | Ano: 2015 | Nº de Páginas: 318| Livro Físico | CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤ 



“Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.” (Extraordinário, p. 313)

Eu tinha que começar esta impressão literária com essa passagem ou, como diria o Sr. Browne, com este preceito, porque acho que ela traduz com maestria a essência dessa história: a celebração das diferenças humanas. R.J. Palacio nos lembra, com a história de Auggie, que cada um de nós é único e a preciosidade da vida consiste nisso.

Extraordinário nos conta a história de August Pullman ou, como todos o conhecem, apenas Auggie. Auggie é um garoto de 10 anos como qualquer outro: adora jogar vídeo game e tem verdadeira obsessão por Star Wars. No entanto, Auggie é diferente em uma só coisa: ele nunca freqüentou uma escola na vida e está preste a iniciar esse desafio.

O motivo pelo qual o Auggie nunca ter freqüentado a escola é que ele nasceu com um problema de saúde: uma síndrome genética que lhe causa deformações faciais e lhe conferem tanto uma aparência incomum, como também muitas dificuldades para fazer coisas simples como comer ou respirar. Por isso, Auggie Pullman passou grande parte da sua vida em quartos de hospitais se recuperando de cirurgias que lhe ajudaram a ter uma vida com maior qualidade. Porém, essa rotina sempre o impediu de freqüentar a escola.

Quando faz dez anos, Auggie já não precisa passar por tantas cirurgias como no passado e, assim, sua mãe Isabel acha que está na hora do filho ir para a escola. De início, o Auggie não se sente nada feliz com essa possibilidade, mas um dos maiores valores que vemos nesse garoto é a coragem e vai ser com ela que ele enfrentará esse desafio.

De forma leve, simples e muito bem-humorada, R.J. Palacio escreve o dia a dia de Auggie na nova escola, as amizades que ele faz, suas inseguranças, seu sucesso nas aulas de ciência e, claro, o bullying que infelizmente o Auggie sofre por causa de sua aparência. Mas, como falei antes, Auggie Pullman é um garoto corajoso e ele enfrentará todos esses desafios de cabeça erguida e sem nunca perder a doçura da infância.

O mais interessante desse livro é que ele é contado da perspectiva de vários personagens da história. E a Palacio nos faz ter raiva por um breve momento de certos personagens e depois, em poucas páginas adiante, compreendê-los e perdoá-los por não serem tão legais com o Auggie em certas ocasiões. A autora nos faz entender que as relações humanas não são tão fáceis como esperamos que sejam. Conviver não é preto no branco e ninguém é perfeito. Todos cometemos erros e sempre podemos voltar atrás e fazer diferente.

“Por isso nossos feitos são nossos monumentos. Construídos com memórias em vez de pedras” (Extraordinário, p. 72)

“minha mente gira com isso, mas então surgem pensamentos mais suaves, como um terceiro violino em uma sinfonia de cordas. não, não é tudo um acaso. se fosse, o universo nos abandonaria à própria sorte. e o universo não faz isso. ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos. como pais que amam cegamente. e uma irmã mais velha que se sente culpada por ser humana com relação a você. e um garotinho de voz grave que perdeu os amigos por sua causa. e até uma garota de cabelo rosa que carrega sua foto na carteira. talvez seja uma loteria, mas o universo deixa tudo certo no final. o universo cuida de todos os seus pássaros.” (Extraordinário, p. 210)

Auggie & Eu não é uma continuação do universo de Extraordinário, apesar de se passar nele. Aliás, na introdução do livro a R.J. Palácio deixa bem claro que não pretende estender a história do Auggie. Ela prefere que ele cresça em nossa imaginação e tenha um destino único no coração de cada um. Auggie & Eu, na verdade, é a versão de alguns dos personagens que não tiveram fala em Extraordinário. São três contos: O capítulo do Julian, Plutão e Shingaling.

O capítulo do Julian, como o próprio título já sugere é a versão do Julian da história e chance dele se redimir. É que o Julian é o principal agressor do Auggie na escola e no livro Extraordinário ele não tem voz. Algo que a Palacio também explica o porquê, já que ela não queria vitimizar o agressor. O que é uma escolha certeira. O Julian se redime, se arrepende, mas continua responsável pelos seus atos. Afinal, passar a mão na cabeça nunca salvou ninguém, não é?


A história Plutão conta um evento da vida de Christopher, que é o melhor amigo de Auggie, mas que é só citado durante Extraordinário. É que Christopher se mudou e ele e Auggie só tem contato através de facetime e telefone. Tenho que te confessar que foi o conto mais fraco dos três. É que o Christopher é um pré-adolescente típico: chato, revoltado e fechado pro mundo. Mas a história passa uma mensagem legal no final das contas: nunca deixe para dizer “eu te amo” para depois, porque talvez não dê tempo.

Shingaling conta a história da Charlotte, que é uma das alunas escolhidas para dar boas vindas ao Auggie na escola. Ela é uma aluna brilhante e uma garota muito legal, mas não corajosa o suficiente para enfrentar o desafio de ser amiga de August Pullman. Esse conto, dos três, é o que eu mais gostei. Ele conta como surge uma amizade secreta entre uma nerd, uma garota popular e uma, como posso dizer, neutra na vida social escolar. A mensagem é incrível!

“Eu acredito que um sonho é como um desenho em sua mente que vai ganhando vida. Você tem que imaginá-lo primeiro. Depois tem que trabalhar muito, muito pesado para torná-lo realidade.” (Auggie & Eu, p. 215).

“Não basta ser amigável. Você tem que ser amigo.” (Extraordinário, p. 312).

Enfim, esse universo de Extraordinário é, como o próprio nome já fala, extraordinário. A história do Auggie Pullman nos inspira a ser e dar o melhor que nós somos. Nos lembra que são as diferenças que nos impulsionam para frente. Arrisco a afirmar que essa história deveria ser lida nas escolas por crianças e adolescentes. É importante que o “nosso futuro” tenha contato com valores tão incríveis e necessários para conviver harmoniosamente. Quem sabe assim não escrevemos uma história mais bonita para a humanidade?

“-... mas o que quero que vocês, meus alunos, levem de sua experiência no ensino fundamental – prosseguiu – é a certeza de que, no futuro que vão construir para si, tudo é possível. Se cada pessoa nesse auditório tomar por regra que, onde quer que esteja, sempre que puder, será um pouco mais gentil do que o necessário, o mundo realmente será um lugar melhor. E, se fizerem isso, se forem apenas um pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus (Extraordiário, p.303).”


 P.S.: O trabalho gráfico desses dois livros é algo, assim... extraordinário! As ilustrações são incríveis, o cuidado a cada capítulo... Realmente, tudo muito lindo!

domingo, 1 de abril de 2018

Crime e Castigo e a Loucura da Miséria

FICHA TÉCNICA



Título: Crime e Castigo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradutor: Natália Nunes e Oscar Mendes
Editora: L&PM
Ano: 2016
Nº de Páginas: 590
Livro Físico



CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤

Crime e Castigo foi meu primeiro Dostoiévski e confesso que o impacto foi grande. Junto a Os Irmãos Karamazóv, principal romance do autor, Crime e Castigo é uma de suas obras mais aclamadas. Escrito em um período complicado da vida de Dostoiévski, que por dívidas em jogo, se viu pressionado a escrever a obra para conseguir dinheiro, Crime e Castigo ainda assim consegue ser genial.
Devo reconhecer que a leitura não foi fácil para mim. Não por ser chata, entediante ou complicada de entender, nada disso. Crime e Castigo é impressionantemente bem escrito e talvez tenha sido esse meu maior problema, por mais irônico que pareça. Raskólhnikov, protagonista da nossa trama, é uma pessoa em surto e a narrativa de Dostoiévski materializa esse estado. Crime e Castigo é essencialmente perturbador, ler a obra é estar na cabeça de um louco; e pior, é estar na cabeça de um louco assassino.
Raskólhnikov é um jovem de 23 anos, pobre, que vive no centro de Petersburgo. E, mesmo vindo de origem humilde, consegue uma vaga na faculdade da capital do país. Para conseguir se sustentar, Raskólhnikov conta com o sacrifício da irmã e da mãe, que lhe mandam um dinheiro que não têm; e, para completar a renda, Raskólhnikov dar aulas particulares. No entanto, no momento em que começamos a acompanhar a história do jovem estudante, ele está em um estado de miséria tão grande, que lhe falta dinheiro até para comer.
Tal situação financeira o obriga a abandonar o curso, o que piora ainda mais a sua realidade. Sem ser um estudante de universidade, as aulas particulares ficam tão escassas, que desaparecem de vez. E essa é a perdição do nosso protagonista. A miséria enlouquece Raskólhnikov a ponto de o transformar em um assassino. O jovem estudante assassinará a sangue frio duas mulheres e, mesmo com todas as teorias mirabolantes que irá criar para justificar seu ato, a culpa irá consumi-lo durante toda a trama.
Em um dado momento, tomamos conhecimento que Raskólhnikov escreveu um artigo para o jornal, no qual desenvolveu uma teoria. E esse artigo é a chave do romance. Talvez escrito no início da doença do estudante, o artigo traz a teoria de que existiriam homens superiores a quem a lei não deveria limitar. Tais homens poderiam transcender às leis, cometendo atos considerados crimes para pessoas comuns, mas que, para eles, seriam atos legítimos para um “bem maior”. E é nessa teoria que Raskólhnikov irá pautar seu crime, pelo menos um deles. Raskólhnikov se sente um homem superior, um homem a quem a lei não pode limitar.
Com a miséria, Raskólhnikov vê-se obrigado a penhorar alguns de seus bens a uma velha agiota, que, digamos, não é o melhor dos seres humanos. Usurária, a velha ameaça os seus “clientes” e, nas palavras do protagonista, ela é um piolho, que se exterminado, nenhuma falta faria à humanidade. Pelo contrário, sua morte seria um favor para todos. E é com essa justificativa que o estudante arquiteta e põe em prática (não sem antes muito hesitar) o assassinato da agiota e o roubo de alguns dos bens que ela guardava em seu apartamento. E apesar de todos os outros “poréns” darem certo, e Raskólhnikov sair da cena do crime sem nenhuma testemunha ocular ou pistas, apenas um dá errado: durante o latrocínio, aparece no apartamento a irmã mais nova da velha e o estudante não vê outra alternativa a não ser assassiná-la também. E é assim que começa o calvário do nosso protagonista. Raskólhnikov irá penar na culpa, chegando a perder a consciência por dias a fio.
Desse modo, acompanhamos o seu martírio. Sua luta interna em se entregar e ficar com a consciência redimida, mas decepcionar sua mãe e sua irmã; ou sair impune e passar o resto da vida atormentado pelo crime. Quem lhe ajudará nesse caminho será Sônia, que vive em uma situação de miséria ainda pior que a dele. Sônia se prostitui para sustentar o pai alcóolatra, a madrasta tísica e os três irmãos, mas ainda assim é execrada por todos ao redor. O próprio Raskólhnikov apenas se confessa com ela por achar que ela é pecadora e lhe entenderá. Mas Sônia, apesar de sua realidade, é a imagem da pureza. Sônia é, por fora, tudo o que mais a sociedade despreza, mas, por dentro, em sua alma, é tudo o que mais se almeja ser. Sônia, com uma devoção inexplicável, não desistirá de Raskólhnikov até o regenerar.
Por fim, vale destacar a importância da leitura de Crime e Castigo em tempos de “bandido bom é bandido morto”. Como fala a Profª Elena Vássina no programa Literatura Fundamental, o romance nos põe na cabeça de um criminoso e nos faz enxergar que ele é um humano como qualquer outro. A regeneração de Raskólhnikov é um alento para qualquer desesperança na humanidade. Sobretudo por que ela ser feita por Sônia, tão à margem da sociedade quanto ele. A leitura de Crime e Castigo mexe com todos os ”ticos e tecos” dentro da cabeça, nos tira fora da caixinha e nos faz viver uma realidade bem difícil de se colocar. É uma leitura árida, perturbadora, mas essencial para todo e qualquer leitor apaixonado pelas nuances da alma humana.
E, eu, eu só te digo uma coisa: leia Crime e Castigo!


Pollyanna e nossa influência uns sobre os outros

Título:  Pollyanna |  Autor:  Eleanor H. Porter |  Tradutor:  Monteiro Lobato |  Editora:  Companhia Editora Nacional |  Ano:  1985 | ...