FICHA TÉCNICATítulo: Crime e Castigo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradutor: Natália Nunes e Oscar Mendes
Editora: L&PM
Ano: 2016
Nº de Páginas: 590
Livro Físico
CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤
Crime e Castigo
foi meu primeiro Dostoiévski e confesso que o impacto foi grande. Junto a Os Irmãos Karamazóv, principal romance
do autor, Crime e Castigo é uma de suas
obras mais aclamadas. Escrito em um período complicado da vida de Dostoiévski,
que por dívidas em jogo, se viu pressionado a escrever a obra para conseguir
dinheiro, Crime e Castigo ainda assim
consegue ser genial.
Devo
reconhecer que a leitura não foi fácil para mim. Não por ser chata, entediante ou
complicada de entender, nada disso. Crime
e Castigo é impressionantemente bem escrito e talvez tenha sido esse meu
maior problema, por mais irônico que pareça. Raskólhnikov, protagonista da
nossa trama, é uma pessoa em surto e a narrativa de Dostoiévski materializa
esse estado. Crime e Castigo é
essencialmente perturbador, ler a obra é estar na cabeça de um louco; e pior, é
estar na cabeça de um louco assassino.
Raskólhnikov
é um jovem de 23 anos, pobre, que vive no centro de Petersburgo. E, mesmo vindo
de origem humilde, consegue uma vaga na faculdade da capital do país. Para
conseguir se sustentar, Raskólhnikov conta com o sacrifício da irmã e da mãe,
que lhe mandam um dinheiro que não têm; e, para completar a renda, Raskólhnikov
dar aulas particulares. No entanto, no momento em que começamos a acompanhar a
história do jovem estudante, ele está em um estado de miséria tão grande, que
lhe falta dinheiro até para comer.
Tal
situação financeira o obriga a abandonar o curso, o que piora ainda mais a sua
realidade. Sem ser um estudante de universidade, as aulas particulares ficam
tão escassas, que desaparecem de vez. E essa é a perdição do nosso
protagonista. A miséria enlouquece Raskólhnikov a ponto de o transformar em um assassino.
O jovem estudante assassinará a sangue frio duas mulheres e, mesmo com todas as
teorias mirabolantes que irá criar para justificar seu ato, a culpa irá
consumi-lo durante toda a trama.
Em
um dado momento, tomamos conhecimento que Raskólhnikov escreveu um artigo para
o jornal, no qual desenvolveu uma teoria. E esse artigo é a chave do romance.
Talvez escrito no início da doença do estudante, o artigo traz a teoria de que existiriam
homens superiores a quem a lei não deveria limitar. Tais homens poderiam
transcender às leis, cometendo atos considerados crimes para pessoas comuns,
mas que, para eles, seriam atos legítimos para um “bem maior”. E é nessa teoria
que Raskólhnikov irá pautar seu crime, pelo menos um deles. Raskólhnikov se
sente um homem superior, um homem a quem a lei não pode limitar.
Com
a miséria, Raskólhnikov vê-se obrigado a penhorar alguns de seus bens a uma
velha agiota, que, digamos, não é o melhor dos seres humanos. Usurária, a velha
ameaça os seus “clientes” e, nas palavras do protagonista, ela é um piolho, que
se exterminado, nenhuma falta faria à humanidade. Pelo contrário, sua morte
seria um favor para todos. E é com essa justificativa que o estudante arquiteta
e põe em prática (não sem antes muito hesitar) o assassinato da agiota e o
roubo de alguns dos bens que ela guardava em seu apartamento. E apesar de todos
os outros “poréns” darem certo, e Raskólhnikov sair da cena do crime sem
nenhuma testemunha ocular ou pistas, apenas um dá errado: durante o latrocínio,
aparece no apartamento a irmã mais nova da velha e o estudante não vê outra alternativa
a não ser assassiná-la também. E é assim que começa o calvário do nosso
protagonista. Raskólhnikov irá penar na culpa, chegando a perder a consciência
por dias a fio.
Desse
modo, acompanhamos o seu martírio. Sua luta interna em se entregar e ficar com
a consciência redimida, mas decepcionar sua mãe e sua irmã; ou sair impune e
passar o resto da vida atormentado pelo crime. Quem lhe ajudará nesse caminho
será Sônia, que vive em uma situação de miséria ainda pior que a dele. Sônia se
prostitui para sustentar o pai alcóolatra, a madrasta tísica e os três irmãos,
mas ainda assim é execrada por todos ao redor. O próprio Raskólhnikov apenas se
confessa com ela por achar que ela é pecadora e lhe entenderá. Mas Sônia,
apesar de sua realidade, é a imagem da pureza. Sônia é, por fora, tudo o que
mais a sociedade despreza, mas, por dentro, em sua alma, é tudo o que mais se
almeja ser. Sônia, com uma devoção inexplicável, não desistirá de Raskólhnikov
até o regenerar.
Por
fim, vale destacar a importância da leitura de Crime e Castigo em tempos de “bandido bom é bandido morto”. Como
fala a Profª Elena Vássina no programa Literatura Fundamental, o romance nos
põe na cabeça de um criminoso e nos faz enxergar que ele é um humano como
qualquer outro. A regeneração de Raskólhnikov é um alento para qualquer
desesperança na humanidade. Sobretudo por que ela ser feita por Sônia, tão à
margem da sociedade quanto ele. A leitura de Crime e Castigo mexe com todos os ”ticos e tecos” dentro da cabeça,
nos tira fora da caixinha e nos faz viver uma realidade bem difícil de se colocar.
É uma leitura árida, perturbadora, mas essencial para todo e qualquer leitor
apaixonado pelas nuances da alma humana.
E,
eu, eu só te digo uma coisa: leia Crime e
Castigo!

Nenhum comentário:
Postar um comentário