domingo, 1 de abril de 2018

Crime e Castigo e a Loucura da Miséria

FICHA TÉCNICA



Título: Crime e Castigo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradutor: Natália Nunes e Oscar Mendes
Editora: L&PM
Ano: 2016
Nº de Páginas: 590
Livro Físico



CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤

Crime e Castigo foi meu primeiro Dostoiévski e confesso que o impacto foi grande. Junto a Os Irmãos Karamazóv, principal romance do autor, Crime e Castigo é uma de suas obras mais aclamadas. Escrito em um período complicado da vida de Dostoiévski, que por dívidas em jogo, se viu pressionado a escrever a obra para conseguir dinheiro, Crime e Castigo ainda assim consegue ser genial.
Devo reconhecer que a leitura não foi fácil para mim. Não por ser chata, entediante ou complicada de entender, nada disso. Crime e Castigo é impressionantemente bem escrito e talvez tenha sido esse meu maior problema, por mais irônico que pareça. Raskólhnikov, protagonista da nossa trama, é uma pessoa em surto e a narrativa de Dostoiévski materializa esse estado. Crime e Castigo é essencialmente perturbador, ler a obra é estar na cabeça de um louco; e pior, é estar na cabeça de um louco assassino.
Raskólhnikov é um jovem de 23 anos, pobre, que vive no centro de Petersburgo. E, mesmo vindo de origem humilde, consegue uma vaga na faculdade da capital do país. Para conseguir se sustentar, Raskólhnikov conta com o sacrifício da irmã e da mãe, que lhe mandam um dinheiro que não têm; e, para completar a renda, Raskólhnikov dar aulas particulares. No entanto, no momento em que começamos a acompanhar a história do jovem estudante, ele está em um estado de miséria tão grande, que lhe falta dinheiro até para comer.
Tal situação financeira o obriga a abandonar o curso, o que piora ainda mais a sua realidade. Sem ser um estudante de universidade, as aulas particulares ficam tão escassas, que desaparecem de vez. E essa é a perdição do nosso protagonista. A miséria enlouquece Raskólhnikov a ponto de o transformar em um assassino. O jovem estudante assassinará a sangue frio duas mulheres e, mesmo com todas as teorias mirabolantes que irá criar para justificar seu ato, a culpa irá consumi-lo durante toda a trama.
Em um dado momento, tomamos conhecimento que Raskólhnikov escreveu um artigo para o jornal, no qual desenvolveu uma teoria. E esse artigo é a chave do romance. Talvez escrito no início da doença do estudante, o artigo traz a teoria de que existiriam homens superiores a quem a lei não deveria limitar. Tais homens poderiam transcender às leis, cometendo atos considerados crimes para pessoas comuns, mas que, para eles, seriam atos legítimos para um “bem maior”. E é nessa teoria que Raskólhnikov irá pautar seu crime, pelo menos um deles. Raskólhnikov se sente um homem superior, um homem a quem a lei não pode limitar.
Com a miséria, Raskólhnikov vê-se obrigado a penhorar alguns de seus bens a uma velha agiota, que, digamos, não é o melhor dos seres humanos. Usurária, a velha ameaça os seus “clientes” e, nas palavras do protagonista, ela é um piolho, que se exterminado, nenhuma falta faria à humanidade. Pelo contrário, sua morte seria um favor para todos. E é com essa justificativa que o estudante arquiteta e põe em prática (não sem antes muito hesitar) o assassinato da agiota e o roubo de alguns dos bens que ela guardava em seu apartamento. E apesar de todos os outros “poréns” darem certo, e Raskólhnikov sair da cena do crime sem nenhuma testemunha ocular ou pistas, apenas um dá errado: durante o latrocínio, aparece no apartamento a irmã mais nova da velha e o estudante não vê outra alternativa a não ser assassiná-la também. E é assim que começa o calvário do nosso protagonista. Raskólhnikov irá penar na culpa, chegando a perder a consciência por dias a fio.
Desse modo, acompanhamos o seu martírio. Sua luta interna em se entregar e ficar com a consciência redimida, mas decepcionar sua mãe e sua irmã; ou sair impune e passar o resto da vida atormentado pelo crime. Quem lhe ajudará nesse caminho será Sônia, que vive em uma situação de miséria ainda pior que a dele. Sônia se prostitui para sustentar o pai alcóolatra, a madrasta tísica e os três irmãos, mas ainda assim é execrada por todos ao redor. O próprio Raskólhnikov apenas se confessa com ela por achar que ela é pecadora e lhe entenderá. Mas Sônia, apesar de sua realidade, é a imagem da pureza. Sônia é, por fora, tudo o que mais a sociedade despreza, mas, por dentro, em sua alma, é tudo o que mais se almeja ser. Sônia, com uma devoção inexplicável, não desistirá de Raskólhnikov até o regenerar.
Por fim, vale destacar a importância da leitura de Crime e Castigo em tempos de “bandido bom é bandido morto”. Como fala a Profª Elena Vássina no programa Literatura Fundamental, o romance nos põe na cabeça de um criminoso e nos faz enxergar que ele é um humano como qualquer outro. A regeneração de Raskólhnikov é um alento para qualquer desesperança na humanidade. Sobretudo por que ela ser feita por Sônia, tão à margem da sociedade quanto ele. A leitura de Crime e Castigo mexe com todos os ”ticos e tecos” dentro da cabeça, nos tira fora da caixinha e nos faz viver uma realidade bem difícil de se colocar. É uma leitura árida, perturbadora, mas essencial para todo e qualquer leitor apaixonado pelas nuances da alma humana.
E, eu, eu só te digo uma coisa: leia Crime e Castigo!


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