Título: Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar
Autor: Ricardo Alexandre
Editora: Arquipélago
Ano: 2013
Ilustração da capa: Fabio Cobiaco
Nº de Páginas: 219
Livro Digital
CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤
ATENÇÃO!: Pode conter spoilers.
“O rock é conflito – de gerações, classes, etnias, preferências sexuais, estilo de vida. Por isso o rock nunca foi fenômeno de massa no Brasil. (...) Nasceu da revolta de caipiras americanos, brancos e negros, contra as regras da roça e as leis do pastor, pela liberdade carnal, material, existencial. O diabo é literalmente o pai do rock”
“O rock é conflito – de gerações, classes, etnias, preferências sexuais, estilo de vida. Por isso o rock nunca foi fenômeno de massa no Brasil. (...) Nasceu da revolta de caipiras americanos, brancos e negros, contra as regras da roça e as leis do pastor, pela liberdade carnal, material, existencial. O diabo é literalmente o pai do rock”
Com uma nova abertura
política, com uma economia descontrolada e com todos os anseios de praxe dos 20
e poucos anos, os corpos dos jovens brasileiros dos anos 90 pediam mais: queriam
cumprir as promessas de Raul e satisfazer os anseios de Cazuza. Influenciados pelos
gigantes do rock ocidental e com um tempero todo nosso, a última década do
século XX foi testemunha de uma explosão de criações autorais e ideologicamente
fortes brasileira. Era o nosso coco, maracatu, baião, cavalo-marinho...combinado
com os sons pesados das guitarras.
“Olhando
em retrospecto, na média, vejo que eram tempos muito criativos e destemidos”
Sendo a juventude a fase em
que a música começa a fazer sentido na vida das pessoas, bem na época da busca
de sentido para suas vidas, a música pode parecer ingênua, mas faz uma enorme
diferença. Cheguei bem a tempo de ver o
palco desabar é um diário aberto de tempos fundamentalmente regidos pelo aforismo
liberdade. Encharcado de muito amor, carinho, saudade e honestidade, Ricardo
Alexandre revela, como atuante e observador, a cena do rock de 1993 a 2008 por
trás dos banners e dos holofotes. Longe de ter um caráter de curadoria, é um livro sobre
a realidade do rock: as dificuldades das bandas, a aceitação/rejeição do
público, a ação do complexo industrial-musical, o jornalismo, as incertezas, os
sucessos, os fracassos e o poder que a moeda ouro exerceu sobre tudo isso
(inclusive nos artistas). Um deleite para os subvintes.
“Hoje
vejo que era eu que estava perdendo o bonde da história, preso a certos
paradigmas que não faziam mais sentido (...)”
Das letras que traduziam a fé
num novo país - por fome de formação de uma identidade totalmente nacional - a
uma postura do rock, já no fim dos anos 90, que se apresentava através de piercings,
tatuagens e maquiagens – uma embalagem chocante para um líquido ralo.
“Só
que o rock é autossabotador em sua essência, porque luta tanto contra o sistema
que, um belo dia, ele próprio se torna o sistema”
O aspecto
idealista, provocador e transformador do rock alçado na fé de um novo Brasil,
refletido nas letras – potencialmente questionadoras - e num afloramento de uma
personalidade musical 100% brasileira – numa mistura de lia de Itamaracá com
tudo que é pesado e metálico –, ao assoalho instável proporcionado pela internet
- com seus bilhões de usuários umbigocêntricos -, é de uma riqueza não só para
ser apreciada por um megafã saudosista, mas revela, acima de tudo, as
fragilidades do próprio movimento. O que começa com o manifesto Caranguejos com
Cérebro, termina com Falcão reclamando que Yuka, ex-baterista da banda, estava
trazendo uma carga social grande demais a imagem do grupo (!).
Ainda longe de ser só um
frio relato de toda a cena em si, a reflexão de Ricardo vai mais além, mostra a
mudança (inevitável) geracional influenciada pela máquina motriz da internet,
que aflorou um ego humano capaz de mudar o padrão de comportamento das relações
interpessoais, a qual também é refletida (claro) na música. Levando-nos a inevitável
pergunta: por que as guitarras pararam de gritar?
“Porque
a capacidade de amar a música é infinitamente mais valiosa do que a de
raciocinar sobre ela – até mesmo do que o dom de tocar um instrumento.”
Por fim, sem dúvida, sem nunca perder a
esperança na música, os anos 90 foram tempos regidos pelas leis do acaso embalados
ao som das guitarras.
Viva o Rock'n'Roll!
Viva o Rock'n'Roll!
E vocês, o que acham desse
universo? Comenta aí ;)

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