domingo, 15 de abril de 2018

Dois livros: um universo Extraordinário


FICHA TÉCNICA

Título: Extraordinário | Autor: R.J. Palacio | Tradutor: Rachel Agavino | Editora: Intrínseca | Ano: 2013 | Nº de Páginas: 318 | Livro Físico | CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤❤



Título: Auggie & Eu, Três Histórias Extraordinárias | Autor: R.J. Palacio | Tradutor: Rachel Agavino | Editora: Intrínseca | Ano: 2015 | Nº de Páginas: 318| Livro Físico | CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA: ❤❤❤❤ 



“Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.” (Extraordinário, p. 313)

Eu tinha que começar esta impressão literária com essa passagem ou, como diria o Sr. Browne, com este preceito, porque acho que ela traduz com maestria a essência dessa história: a celebração das diferenças humanas. R.J. Palacio nos lembra, com a história de Auggie, que cada um de nós é único e a preciosidade da vida consiste nisso.

Extraordinário nos conta a história de August Pullman ou, como todos o conhecem, apenas Auggie. Auggie é um garoto de 10 anos como qualquer outro: adora jogar vídeo game e tem verdadeira obsessão por Star Wars. No entanto, Auggie é diferente em uma só coisa: ele nunca freqüentou uma escola na vida e está preste a iniciar esse desafio.

O motivo pelo qual o Auggie nunca ter freqüentado a escola é que ele nasceu com um problema de saúde: uma síndrome genética que lhe causa deformações faciais e lhe conferem tanto uma aparência incomum, como também muitas dificuldades para fazer coisas simples como comer ou respirar. Por isso, Auggie Pullman passou grande parte da sua vida em quartos de hospitais se recuperando de cirurgias que lhe ajudaram a ter uma vida com maior qualidade. Porém, essa rotina sempre o impediu de freqüentar a escola.

Quando faz dez anos, Auggie já não precisa passar por tantas cirurgias como no passado e, assim, sua mãe Isabel acha que está na hora do filho ir para a escola. De início, o Auggie não se sente nada feliz com essa possibilidade, mas um dos maiores valores que vemos nesse garoto é a coragem e vai ser com ela que ele enfrentará esse desafio.

De forma leve, simples e muito bem-humorada, R.J. Palacio escreve o dia a dia de Auggie na nova escola, as amizades que ele faz, suas inseguranças, seu sucesso nas aulas de ciência e, claro, o bullying que infelizmente o Auggie sofre por causa de sua aparência. Mas, como falei antes, Auggie Pullman é um garoto corajoso e ele enfrentará todos esses desafios de cabeça erguida e sem nunca perder a doçura da infância.

O mais interessante desse livro é que ele é contado da perspectiva de vários personagens da história. E a Palacio nos faz ter raiva por um breve momento de certos personagens e depois, em poucas páginas adiante, compreendê-los e perdoá-los por não serem tão legais com o Auggie em certas ocasiões. A autora nos faz entender que as relações humanas não são tão fáceis como esperamos que sejam. Conviver não é preto no branco e ninguém é perfeito. Todos cometemos erros e sempre podemos voltar atrás e fazer diferente.

“Por isso nossos feitos são nossos monumentos. Construídos com memórias em vez de pedras” (Extraordinário, p. 72)

“minha mente gira com isso, mas então surgem pensamentos mais suaves, como um terceiro violino em uma sinfonia de cordas. não, não é tudo um acaso. se fosse, o universo nos abandonaria à própria sorte. e o universo não faz isso. ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos. como pais que amam cegamente. e uma irmã mais velha que se sente culpada por ser humana com relação a você. e um garotinho de voz grave que perdeu os amigos por sua causa. e até uma garota de cabelo rosa que carrega sua foto na carteira. talvez seja uma loteria, mas o universo deixa tudo certo no final. o universo cuida de todos os seus pássaros.” (Extraordinário, p. 210)

Auggie & Eu não é uma continuação do universo de Extraordinário, apesar de se passar nele. Aliás, na introdução do livro a R.J. Palácio deixa bem claro que não pretende estender a história do Auggie. Ela prefere que ele cresça em nossa imaginação e tenha um destino único no coração de cada um. Auggie & Eu, na verdade, é a versão de alguns dos personagens que não tiveram fala em Extraordinário. São três contos: O capítulo do Julian, Plutão e Shingaling.

O capítulo do Julian, como o próprio título já sugere é a versão do Julian da história e chance dele se redimir. É que o Julian é o principal agressor do Auggie na escola e no livro Extraordinário ele não tem voz. Algo que a Palacio também explica o porquê, já que ela não queria vitimizar o agressor. O que é uma escolha certeira. O Julian se redime, se arrepende, mas continua responsável pelos seus atos. Afinal, passar a mão na cabeça nunca salvou ninguém, não é?


A história Plutão conta um evento da vida de Christopher, que é o melhor amigo de Auggie, mas que é só citado durante Extraordinário. É que Christopher se mudou e ele e Auggie só tem contato através de facetime e telefone. Tenho que te confessar que foi o conto mais fraco dos três. É que o Christopher é um pré-adolescente típico: chato, revoltado e fechado pro mundo. Mas a história passa uma mensagem legal no final das contas: nunca deixe para dizer “eu te amo” para depois, porque talvez não dê tempo.

Shingaling conta a história da Charlotte, que é uma das alunas escolhidas para dar boas vindas ao Auggie na escola. Ela é uma aluna brilhante e uma garota muito legal, mas não corajosa o suficiente para enfrentar o desafio de ser amiga de August Pullman. Esse conto, dos três, é o que eu mais gostei. Ele conta como surge uma amizade secreta entre uma nerd, uma garota popular e uma, como posso dizer, neutra na vida social escolar. A mensagem é incrível!

“Eu acredito que um sonho é como um desenho em sua mente que vai ganhando vida. Você tem que imaginá-lo primeiro. Depois tem que trabalhar muito, muito pesado para torná-lo realidade.” (Auggie & Eu, p. 215).

“Não basta ser amigável. Você tem que ser amigo.” (Extraordinário, p. 312).

Enfim, esse universo de Extraordinário é, como o próprio nome já fala, extraordinário. A história do Auggie Pullman nos inspira a ser e dar o melhor que nós somos. Nos lembra que são as diferenças que nos impulsionam para frente. Arrisco a afirmar que essa história deveria ser lida nas escolas por crianças e adolescentes. É importante que o “nosso futuro” tenha contato com valores tão incríveis e necessários para conviver harmoniosamente. Quem sabe assim não escrevemos uma história mais bonita para a humanidade?

“-... mas o que quero que vocês, meus alunos, levem de sua experiência no ensino fundamental – prosseguiu – é a certeza de que, no futuro que vão construir para si, tudo é possível. Se cada pessoa nesse auditório tomar por regra que, onde quer que esteja, sempre que puder, será um pouco mais gentil do que o necessário, o mundo realmente será um lugar melhor. E, se fizerem isso, se forem apenas um pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus (Extraordiário, p.303).”


 P.S.: O trabalho gráfico desses dois livros é algo, assim... extraordinário! As ilustrações são incríveis, o cuidado a cada capítulo... Realmente, tudo muito lindo!

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