segunda-feira, 11 de junho de 2018

BELCHIOR – de norte a sul



FICHA TÉCNICA



Título: Belchior - Apenas um Rapaz Latino Americano
Autor: Jotabê Medeiros
Editora: Todavia
Ano: 2017
Nº de Páginas: 216
Livro Físico



CLASSIFICAÇÃO ANSIOSA❤❤❤





Coloque o que para você é a melhor faixa de Belchior no seu PC, celular, radiola ou toca discos e vamos fazer um pequeno mergulho no universo do latino-americanos mais sagaz que a MPB já viu!

Com um alicerce literário raro, inspirado por João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Verlaine, Rimbaud, além de poesia clássica e da influencia dos cantos gregorianos – sua biblioteca era imensa e ele era um leitor assíduo -, Belchior fez de suas músicas verdadeiros poemas e manifestos. Alguns densos demais para se entender numa primeira experiência. De certo, a sua música não é própria para ser colocada no rádio e fazer outras coisas na casa, mas para ser contemplada, saboreada.

Certa vez disse ele: “Eu não faço música partidária. Eu sou a favor de um recrudescimento das qualidades individuais, diante de qualquer instituição e também da instituição política. Tem governo, eu sou contra. Tem partido, eu sou contra.”(p.106). Pode-se perceber a partir dessas palavras uma de suas maiores características: falar do ser humano acima de tudo. O que o fez alcançar questionamentos inerentes a toda a humanidade. No seu repertório, a liberdade é tida como mote. Do corpo à alma. Indo desde a liberdade política até os amores. “O meu trabalho todo foi voltado para uma crítica dos anos 60(...). Claro que a gente chegaria, naturalmente, a uma crítica do corpo, (...) da problemática do prazer (...)” (p.115). Mesmo as músicas com teor mais notadamente político falam dos questionamentos internos dos seres humanos, como se tudo fosse consequência da nossa imaturidade em viver. E é isso o que o torna fantástico.

Ao tentar classificar a obra de Belchior como arte ou entretenimento (deixando de lado qualquer desdobramento deste embate), com certeza ela se classificaria como arte. Belchior escrevia com imperatividade, sabia o terreno em que estava pisando, portanto sabia para onde apontar o rifle. “Eu sou um compositor da nova geração que está interessado em conteúdo. Eu me repito na medida em que a grande arte se repete (...) e a minha letra é mais importante que a música (...)”.




Sua obra caracterizou-se fortemente pelo embate geracional com o cenário musical vigente através da principal característica que dá a sua música ares de vanguarda: “Eu prefiro errar tentando inventar o avião do que trabalhar numa fábrica deles”(p.112). Ele ironizava as obras dos outros compositores, dentre eles Caetano Veloso, e dos novos ritmos em ascendência, como na discoteca “Corpos Terrestres”, de texto em latim, que era a língua mais importante da cultura romana, para satirizar o inglês exaltado nas discotecas a fim de um “refinamento”, quando estas não possuíam conteúdo. Esse é o papel do artista, questionar os padrões vigentes, o que é tido como sagrado e inviolável, independente da ferramenta utilizada: seu corpo, sua tinta, seu lápis ou seu papel. E por falar em quebrar padrões, Belchior nunca abandonou sua origem e exaltou o nordeste longe de uma forma pitoresca, estereotipada, fazendo uma música para os nordestinos e todas as outras pessoas.

      Por fim - e para não dar spoiler, já que é uma biografia - Belchior doou seu sangue cearense para as canções, funcionando como um grito necessário, uma identidade ativista, proveniente de sua origem humilde e simples. “Eu defino música popular de uma forma ideológica: é aquela que está ao lado do povo” (p. 55). Afinal, ele sabia que amar e mudar as coisas interessam mais.

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